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RELATOS DE EXPERIÊNCIA #01

17/05/2010

 

Primeiramente, ressaltamos que a realização deste projeto  fora a materialização de uma trajetória criativa. Apesar da prévia visualização de eventos na elaboração do projeto enviado ao Programa Rede Nacional FUNARTE 2009, eles foram criações no ato de realizá-los. Ressaltamos isso porque o projeto envolveu não apenas a organização dos eventos, mas acima de tudo uma abertura dos realizadores à pesquisa, à produção e ao diálogo de mão dupla, ou de mão múltipla (como foi o caso da realização das oficinas de fotografia e vídeoarte, onde 29 criadores, contando conosco, estavam em diálogo).

Para materializar as propostas contidas no projeto “Imaginários Compartilhados”, partimos da imaginação já construída historicamente sobre um lugar para nós, até então, desconhecido, voltando-nos à reinvenção deste imaginário a partir da experiência. Colocamo-nos neste texto à produção de uma escritura que é alinhamento de múltiplos rastros de experiências partilhadas durante o primeiro semestre de 2010. Tentaremos apresentar aqui os rastros de velhos imaginários que acabaram por se constituir imaginários reinventados pela experiência.

Para isso, apresentaremos considerações que envolvem a trajetória criativa do projeto, reunindo desta forma as mudanças significativas ocorridas ao passarmos de um determinado imaginário à sua reinvenção pela experiência. Isso para nós assume um aspecto relevânte tendo à frente que as trocas vivenciais aconteceram nos territórios de onde surgiram os discursos aqui problematizados: a Amazônia cortada pela Transamazônica, ou BR-230.

Iniciamos então pelo resgato do que foi a produção de expectativas ao nos projetarmos em lugares desconhecidos, lugares que eram pertencentes aos trajetos que nos propúnhamos a realizar.

Houve uma ruptura clara entre as expectativas e as presenças: ela se iniciou com a aprovação do projeto no prêmio Rede Nacional FUNARTE Artes Visuais 2009. Todo nosso primeiro levantamento de imaginário estava baseado na distância compartilhada pelos artistas em relação à Transamazônica. Não sabíamos ao certo qual sua posição geográfica, quais estados ela percorria, suas origens e motivações, suas conseqüências e suas futuras intervenções, tanto nela mesma, quanto na vida fluída ao redor. Os artistas participaram, a partir dessa distância comum, da criação de expectativas. De várias maneiras, elas relacionavam-se com a elaboração da proposta em suas condições de possibilidade. Traçar materialmente as expectativas fora trazê-las para uma presença, tornando-as possíveis. Acreditamos que uma expectativa é anseio pela presença de algo. É sair de si em direção à espera. As probabilidades de tornar a Transamazônica uma presença para nós passou a se relacionar diretamente com as promessas publicitárias presentes na Revista Realidade de 1971. Aprovado o projeto, fomos confrontados a reformular nossas posições frente ao que colocávamos como expectativa e presença: quando a probabilidade torna-se uma certeza a espera para sua realização ainda é expectativa? De que modo? Quando entramos em contato com as pousadas, hotéis, residências assinalando que lá estaremos em tal hora até tal dia, vivenciamos de alguma maneira uma presença?

Uma exigência para tornar essas questões invisíveis até então questões palpáveis foi passarmos a trabalhar com as ferramentas disponíveis e que iam se fazendo necessárias: nosso corpo, as publicidades e… câmeras de vídeo e fotografia. Nossa experiência com vídeo tornou-se uma questão de necessidade.

Acreditamos, cada qual com sua particularidade, que as ferramentas de trabalho do artista se fazem necessárias a partir das problemáticas colocadas pelos trabalhos desenvolvidos e não o contrário. Não são as especialidades do artista que o fazem tal, nem as especificidades de cada trabalho o definem. A expectativa também é uma espera da maneira pela qual a problemática exige se fazer presente no mundo. Se os meios massivos da época construíram o imaginário de um Brasil grande, através das imagens construídas com câmeras e outros aparelhos de difusão, resgatamos a câmera para desconstruir visões particulares nossas que até então correspondiam a certa visão de senso comum. Os meios massivos traziam, e ainda continuam tentando trazê-lo, o que está longe de nossa vida ordinária, realizando uma presença imaginária. “Transamazônica: a grande aventura nacional” construía com a imagem uma esperança de se encontrar, de se fazer presente, como nação, nestes territórios distantes, até então inocupados e cheios de riquezas.

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