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Ação NOTURNA

08/03/2010

NOTURNA (Edith de Camargo)

Sobreviver à mais longa noite
Que se estende mais um dia
Que nos leva a um sono profundo
Que nos leva à primeira aurora
À primeira palavra
O primeiro silêncio carrega palavras 
Jamais escutadas

Jamais
Sobreviver à mais longa noite
Diluido no mundo e sentido por adiar 
o que nunca mais consegue falar.

Nossa última noite na Amazônia. Estamos no meio do que já foi uma floresta fechada e hoje é uma cidade onde os barcos chegam e partem todo dia o dia inteiro. Há por todos os espaços uma organização caótica, onde pouco se fale e pouco se escuta. O que se escuta muito são os famosos ritmos brega e tecnobrega. As mesmas músicas tocam por quase todos os lugares. As ruas possuem alto-falantes, os carros e os barcos são equipados com equipamentos de som, fora os players portáteis. Como se fossem necessários para ocupar o espaço de silêncio deixado pelo não-dito.

A cidade não é tão povoada: um pouco mais de 100 mil habitantes, numa densidade demográfica de 1,62 habitantes por KM2. Itaituba já foi conhecida como cidade faroeste. Uma extração intensa de ouro fez o lugar ter o aeroporto mais movimentado do mundo na década de 70, com a média de 460 pousos e decolagens por dia. A maior parte desta riqueza do minério não permaneceu, entretanto, conta-se que cinco anos atrás ainda predominavam por algumas ruas uma relação de muita violência com cobrança de pedágio e desentendimentos políticos e sociais. As histórias de crimes passionais, pedofilia, e acerto de contas são comuns e chegam a ser banais nas reportagens nos jornais diários.

Imersos nesse ambiente, sendo constantemente observados, convivendo com esses espaços tomados pela música e pelo não-dito, fomos levados também nós à quietude, numa tentativa de escuta. Esse nosso silêncio nos levou a observar nós mesmos neste lugar. Nossa permanência durante esses dias começou a gerar uma necessidade de fala. Uma vontade de troca, de se colocar neste ambiente de forma autêntica, sem ser conivente com as relações autoritárias e seus jogos de poder diários. Procurar essa fala de uma maneira a ser ouvido sem perder a postura fez com que inseríssemos também nós uma música neste lugar. Um ritmo e uma fala na qual nos sentíssemos presentes.

Com ternura agradecemos a Edith por ter nos cedido a música para inserção na cidade.

5 Comentários leave one →
  1. lourdes navarro Link Permanente
    09/03/2010 2:07 am

    Olá! parabéns por este projeto. Este video conseguiu me dizer e fazer sentir o silêncio, a quietude que você bem retratou no texto e com a música. Bom retôrno pra vocês.
    Nos vemos aqui.
    Beijão

  2. 09/03/2010 2:52 pm

    Incrível. Lendo e vendo o vídeo, consegui imaginar a situação local. Como é bom redescobrir o Brasil através de projetos como esse. Parabéns.

  3. Marcio Santos Link Permanente
    10/03/2010 6:15 pm

    Tudo que vc escreveu e real e triste, pq moro em São Paulo uma cidade violenta e feroz,mas a um mês meu primo que morava em itaituba foi asssinado,um crime passional,traição e morte, dificil de acreditar,mas aconteceu.

  4. Marcio Santos Link Permanente
    10/03/2010 6:18 pm

    Por isso que digo,o Brasil continua o mesmo,só propaganda, e o povo como não quer ficar de fora crê que é desenvolvido.

  5. Marilze B.Assis Link Permanente
    10/03/2010 8:16 pm

    A MÚSICA DA EDITE DEU VOZ A SUA PRESENÇA NESTE LOCAL, BUSCANDO PELA IMAGEM NOS LEVAR A RECONHECER O BRASIL ESCONDIDO, PESSOAS QUE DÃO O SEU SUOR, SEU TRABALHO PARA ESPERAR CADA AMANHECER NESTE LUGAREJO, QUE GUARDA HISTÓRIAS DE OCUPAÇÃO, PODER, LUTAS, SOBREVIVÊNCIA,SONHOS, PERDAS E PRESNÇAS QUE IRÃO SE ETERNIZAR ATRAVÉS DO SEU TRABALHO AÍ REALIZADO, DESPERTANDO TALENTOS, SONHOS, MUDANÇAS, POSSIBILIDADES.PARABÉNS NESTA TRAJETÓRIA REALIZADA E NA DESPEDIDA MARCANDO SUA PRESENÇA QUE FICARÁ PARA SEMPRE NESTES LOCAIS, OFICINAS E NO CONTATO COM OS JOVENS DESTA OFICINA. MARILZE

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